Quinta-feira, 8 Fevereiro 2024

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MATIZAÇÕES DE CIDADANIA 

25 de abril de 1974!

Meu pensamento partiu no tempo, Podem prendê-lo, matá-lo não!

Manuel Alegre

Naquela manhã – AQUELA MANHÃ! – a professora da minha 4.ª classe, excelente senhora e sempre inesquecível, Clarminda Moreira da Cruz, de Apúlia, demora mais tempo a chegar. A malta continua a brincadeira no recreio daquele edifício do Plano dos Centenários em S. Bartolomeu do Mar. O tempo vai passando, a folia mantém-se naquela manhã fria, mas muito alegre, pois, nunca tivemos tanta folga para brincar antes de começar a escola.

– Meninas e meninos, venham cá. Todos para aqui!

A voz ordenante da diretora da escola, a estimada e maternal professora D. Irene Cubelo, exigia uma obediência imediata.

– Vão todos para casa. Hoje não há escola.

À uníssona exclamação de felicidade surge um estrondoso chiu!

– Vai tudo para casa. Houve um golpe de estado. Portugal está em revolução. Pode haver uma guerra civil. Tudo para casa, não quero ninguém no recreio da escola!

Em casa, enquanto aguardo a ordem costumeira de ir com o gado, entram e saem muitas pessoas. Na barbearia do meu avô materno, Delfim Maria Maranhão, o tio Quintas, na casa onde nasci e vivia, estão alguns a ouvir a rádio. Os comentários são vários, mas recordo um que muito me assustou:

– Isto ainda vai dar para o torto. A PIDE vai controlar isto e nós vamos estar atrapalhados com os bufos. Vem aí uma guerra civil!

Guerra!

Pus-me á janela da cozinha virada para a Estrada Nacional n.º 13, mesmo defronte à minha bela escola. Nela passa um carro de longe em longe. Algumas pessoas param a conversar e depois fogem apressadas. E se vem a guerra? Ninguém nos pode defender. O meu tio António que esteve na guerra da Guiné está em França com o meu pai, no departamento 93, na região de Paris!

Nesse ano ainda e nos seguintes ao ver as grandes manifestações fizemos, primeiro de Viana do Castelo e depois de Braga a terra da fraternidade. Aí, na multicolor partidária, imperava a única certeza: O Povo Unido Jamais Será Vencido!

E na televisão assistíamos à chegada dos retornados das ex-colónias, pensando que vinham passar férias como os emigrantes espalhados pela França, Alemanha, Bélgica ou Suécia.

Nesta realidade juvenil começamos a admirar as pessoas que eram notícia na televisão, na rádio e nos jornais.

Quando falam da Guiné, Angola e Moçambique assalta-nos ao pensamento aquela cantilena de algumas moças da minha terra quando iam à fonte buscar água:

Menina dos olhos tristes

O que tanto a faz chorar

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

Era uma bela melodia, mas acabava muito triste:

O soldadinho já volta

Está quase mesmo a chegar

Vem numa caixa de punho

Desta vez o soldadinho

Nunca mais se faz ao mar.

Minha mãe tinha-me explicado que a caixa de pinho era o caixão que trazia os soldados que morriam na guerra colonial.

Os governos sucedem-se e os ministros também. No Liceu, anos letivos 1980/81 e 1981/82, participamos com entusiasmo nas eleições para a Associação de Estudantes, com RGA’s – Reunião Geral de Alunos inflamadas, ao rubro nas variadas vertentes da afirmação política e iniciamos o debate de ideias e de referências ideológicas. Aí aprendemos o conteúdo almejado da trilogia revolucionária: Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

É com inacreditável veracidade que sabemos da morte de Sá Carneiro. Nesta orfandade referencial partidária encontramos em Mota Pinto a pessoa capaz para enfrentar os desafios imediatos.

Na Lusa Atenas adquirimos a consciência de estar situado no tempo real e no tempo mítico.

O tempo real é o domínio do presente, plasmado a cada momento em aspiração a uma vida melhor, talhada nas figuras nobres do trabalho e da sabedoria.

O tempo mítico corresponde a todo o rito de iniciação num mundo único, ganhou forma ao longo dos séculos pelo esforço e amor conjugados de poetas, filósofos e cientistas.

Aprendemos que o sonho comanda a vida e a ter em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade, curvamo-nos perante a corajosa postura dos Homens de Abril e num canto de nostalgia desejamos ter sido ativistas no Maio de 1969.

Aí compreendemos como uma madrugada trouxe, de surpresa, a Revolução em forma de cravo. Que abriu a porta à Democracia e fechava as portas das prisões políticas. Um dia que mudou a História do meu país. Um dia que alterou para melhor a vida de milhões de portugueses.

Conscientes de que a juventude foi sempre, em todas as civilizações e em todas as épocas da História, a ala avançada do dinamismo e da ousadia, da força física e do empenhamento espiritual, assumimos a construção do nosso futuro. Um futuro em respeito pela qualidade de vida, pelo equilíbrio ecológico, onde o modelo de desenvolvimento proporcione mais harmonia, onde nos possamos sentir cidadãos, munícipes de corpo inteiro e onde a solidariedade social seja prática de todos.

Foi no espaço social-democrata reformista e tolerante que entendemos conjugar, com equilíbrio, os valores da liberdade individual, da igualdade de oportunidades, da solidariedade e da justiça social na construção da felicidade em comunidade.

Hoje, cientes da ultrapassagem das vicissitudes do processo de transição para a democracia, onde se destacam ao longo desse período acontecimentos tão relevantes como a luta contra as tentativas totalitárias, a descolonização, a integração na Europa Comunitária, a radical alteração no quadro de referência em que passou a funcionar a economia nacional e a profunda transformação verificada em todos os setores da sociedade portuguesa ao longo da década de oitenta, em grande parte por ação da participação dos social-democratas no poder.

A afirmação e consolidação da social-democracia portuguesa ocorreu num quadro em que as tentativas totalitárias surgiram à esquerda do espectro político, apoiadas e incentivadas por forças de pendor coletivista. Essas forças entroncam na família das forças políticas que entraram em colapso no mundo após a queda do Muro de Berlim, facto que comprova a justeza do PPD/PSD, que sempre as combateu com vigor no período de transição democrática, no decurso do qual foi por diversas vezes posto em causa o objetivo da construção de uma verdadeira democracia.

A social-democracia portuguesa fez uma opção clara pela democracia parlamentar, como forma de participação democrática plena, fez a rutura com o revolucionarismo, apostou na dimensão social do Estado e na transformação do capitalismo por dentro.

 A democracia portuguesa deve muito à luta dos social-democratas contra as tentativas hegemónicas e totalitárias. A identidade do PPD/PSD moldou-se neste duplo objetivo de libertar a sociedade civil e o Estado da tentação totalitária.

Duas décadas decorridas após 1974, Portugal é indiscutivelmente um país diferente e melhor em todos os aspetos. Nós portugueses usufruímos de uma plena democracia política, de maior bem-estar material, de enriquecimento cultural e de uma afirmação consequente e sem complexos dos valores históricos e nacionais.

Esta nova face de Portugal é indissociável da atuação do PPD/PSD, força partidária que produziu profundas transformações no País.

Porém, um partido político como o PPD/PSD, que se assume como reformista, deve ser uma entidade estruturalmente evolutiva, não-estática, aberta em permanência à mudança, à inovação e à inteligência crítica. Deve estar atento à vertiginosa mudança inerente à complexidade das sociedades modernas, tem que ser capaz de interpretar e acompanhar as correspondentes transformações sociais, porque só assim pode continuar a ser o referencial dos milhões de mulheres e homens que com ele se identificam e com ele contam para responder aos seus anseios e legítimas expetativas.

A nossa geração assume a irreverência, cultiva e desenvolve o espírito crítico. Queremos cada vez mais e melhor. Sendo evidente que as nossas ambições são agora outras e muito mais exigentes do que ontem. Temos plena consciência das responsabilidades para com a nossa geração e para com os vindouros.

A experiência dos mais velhos tem o complemento no impulso dos jovens. A pujança juvenil encontra o seu equilíbrio no saber dos mais experientes. E não há dúvidas de que os jovens são a vanguarda do pensamento, são a esperança e os agentes de mudança rumo ao Futuro!

25 de abril de 1994!

Traz outro Amigo também

Seja bem-vindo quem vier por bem.

sobre o autor:

Arquivista, historiador e gestor. Nasceu em S. Bartolomeu do Mar (Esposende) no dia 25 de dezembro de 1963. 

Presidente do Conselho de Administração da empresa municipal ESPOSENDE 2000 – Actividades Desportivas e Recreativas, desde 7 de agosto de 2017.

Extrato do discurso proferido na Comemoração do 20.º Aniversário da Revolução de Abril, na Assembleia Municipal Extraordinária realizada no dia 25 de abril de 1994, no Auditório Municipal de Esposende, em representação do PPD/PSD.

Na época Vice-Presidente do Grupo Parlamentar Municipal e Presidente da JSD de Esposende.

Homenagem de sentida gratidão e memória a Abílio Cepa Cerqueira, Eng.º Adelino Carvalho do Vale, Dr. Albino Pedrosa Campos, Dr. António Fernando Arezes Cepa, Carlos Alberto Carneiro Areias, Prof. Carlos Manuel Vasco Afonso Novo, Dr. José Augusto Nobre Madureira, José Fernandes Ribeiro, Eng.º Manuel Fernandes Ribeiro, Germecindo da Cruz Rodrigues, Prof.ª Gumerzinda de Jesus Rodrigues Francisco, 1.º Sargento João António e Sérgio Fernandes Grilo, assim como a todas/todos as/os Companheiras/Companheiros que já partiram do nosso convívio, Amigos persistentes e encorajadores neste Caminho pela social-democracia. Até sempre, onde quer que estejam!

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