Pedro Costa Santos – Músico

Para nós, o número nove não passa disso mesmo… é um número ou apenas mais um número. Mas no mundo da Música – esse mundo repleto de lendas, mitos e superstições – o número nove traz consigo o peso de uma maldição: a maldição da nona sinfonia.

É certo que existem grandes compositores de sinfonias, por exemplo Mozart ou Haydn que compuseram 41 e 104 sinfonias respetivamente e que são da mesma época de Beethoven, mas esta maldição começa precisamente com este último compositor.

Ludwig van Beethoven (1770-1827) que, como os leitores mais atentos o saberão, ainda começou a escrever a sua décima sinfonia, mas não a terminou. Ficou apenas escrito um pequeno fragmento de cerca de 350 compassos que deveriam corresponder ao primeiro andamento da mesma. Quanto à sua nona sinfonia, estamos perante uma autêntica obra-prima. Beethoven estava já com sérios problemas de saúde e até completamente surdo! No entanto, é indiscutível a qualidade e genialidade presente nesta obra. Recorde-se, por exemplo, o poema “Ode à Alegria” (ou Hino da Alegria) presente no início do quarto e último andamento desta sinfonia. Este poema é desde 1972 o hino oficial do Conselho Europeu e, desde 1986, o da União Europeia. A Unesco considerou- a Património da Humanidade em 2001, tornando-se a primeira obra musical a ser distinguida com este galardão. Coincidência ou não, o que é certo é que um conjunto de famosos compositores que sucederam Beethoven não conseguiram atingir o alvejado número nove: os alemães Félix Mendelssohn (1809-1847) com cinco sinfonias, Robert Schumann (1810-1856) com quatro, Johannes Brahms (1833-1897) também com quatro e o russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893) autor de sete obras do género (incluindo a Sinfonia Manfred).

Outros compositores tornaram-se vítimas da fulminante maldição ao alcançarem o fatídico número nove, como o alemão Louis Spohr (1784-1859), o checo Antonín Dvorák (1841-1904) e os austríacos Anton Bruckner (1824-1896), Franz Schubert (1797-1828) e Gustav Mahler (1860-1911).

O medo de alcançar o número nove era evidente em alguns compositores. Gustav Mahler (1860-1911) chegou mesmo a tentar escapar à maldição por meio de um subterfugio: quando terminou de compor a sua nona sinfonia, riscou o número nove da partitura e publicou-a com o nome “Das Lied von der Erde”, ou em português “A Canção da Terra”. Continuou o seu trabalho de composição e lançou mais tarde (1910) uma nova sinfonia que a intitulou como Sinfonia n.º 9, o que na verdade seria a sua décima sinfonia. Ao publicá-la chegou mesmo a exclamar que o perigo teria passado. No entanto, a verdade é uma: morreu tempos depois, a cerca de dois meses de completar 51 anos de idade.

Mas será que essa maldição ainda paira no universo da composição? Diz-se que a maldição terá terminado há relativamente pouco tempo, em 1953, quando o russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) compôs a sua décima de quinze sinfonias.

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